Educação: escola e família devem caminhar juntas

Especialis­tas em educação que acreditam que família e a escola podem colaborar para a construção da identidade de crianças e jovens quando são trabalhadas em conjunto.

Segundo o filósofo e educador César Nunes, consultor do Sistema Positivo de Ensino (SPE), “a escola, para ser um agente de humanização, tem que ter relações orgânicas com a família e com a sociedade”. No entanto, existem diferentes papéis e funções formativas entre elas, embora tanto escola como família contribuam e se articulem na formação das crianças e dos adolescentes.
“A família não deve terceirizar para a escola as funções e as bases educacionais que são de sua responsabilidade, tais como a formação moral, a educação ética e social”, diz Nunes que já escreveu 26 livros e é professor titular de filosofia e educação na Unicamp.
Para ele os pais podem e devem participar intensamente da vida educacional, cultural e escolar de seus filhos. “Participar é acompanhar plenamente o desenvolvimento dos filhos, com base em uma premissa de que é preciso acreditar que cada pessoa é uma versão única e original de vida: acompanhar os filhos nessa apropriação da humanidade, ajudá-los no desenvolvimento de suas identidades e na formação de seu caráter, aceitar as características deles, reforçá-los em suas escolhas, apoiá-los em suas decisões!”

Especilista comenta sobre o papel dos pais na educação

Portrait of pupils looking at globe while listening to teacher during geography lesson

Quando falamos em educação, o que é de responsabilidade da escola?

À escola cabe formar a criança na continuidade da for-mação familiar, com ênfase na aquisição de conhecimentos, nas atitudes e condutas, nas posturas pessoais e coletivas, diante dos fenômenos institucionais e vivenciais. Cabe à es-cola solidificar os valores, acentuar e legitimar as práticas de solidariedade, de responsabilidade, de sustentabilidade, mas o lugar do nascimento e o reforço estrutural dessas práticas é na família. E, de algum modo, é também a sociedade, os seus espaços e as suas expressões que atuam num proces¬so coadjuvante de formação da criança e dos adolescentes iniciados na família e fortalecidos pela escola.

Como a escola e a família podem colaborar com o desenvolvimento dos jovens?

A família e a escola são os universos matriciais da humanização, do desenvolvimento humano, social e subjetivo das crianças e dos adolescentes. Tanto a família quanto a escola precisam acreditar que o exemplo é a melhor prática educativa. Não adianta fazer discursos e sermões para os estudantes, ou ainda fazer preleções para os filhos sobre as coisas, sem o devido acompanhamento da coerência e da verdade.
Para ser educador, pais e mães educadores, para se tornar e ser reconhecido como um professor-educador, é preciso ser verdadeiro, estar convencido de alguns princípios e agir como exemplo vivo. Se os pais exigem leituras, a melhor forma de educar é sentar junto com os filhos e ler com eles um livro, contar histórias, conversar, brincar. Exigir que as crianças leiam e nunca ser visto em práticas de leitura é um dos exemplos clássicos de incoerência. E se torna o paradigma de outras atitudes.

Quais mudanças são necessárias nesse contexto?

A grande e inalienável tarefa da família é a de amar e acolher seus filhos e filhas. A grande lição da escola é a de dar continuidade a essa experiência gratuita de amor e de acolhimento, com a consequente função de encaminhar a criança e os adolescentes no mundo da cultura, na convivência com os diferentes, na ampliação do universo familiar. Saber e conhecer são valores socialmente muito importantes, mas tem que ter parâmetros éticos e políticos voltados para a promoção da vida, para a prática da liberdade, para o respeito às diferenças. Não posso ter a presunção de que o saber esteja acima da vida, da igualdade humana. Não pode a erudição superar a sabedoria. Só há dois caminhos para a felicidade: a ética – cultivar valores pessoais e grupais, e a política – estabelecer consensos coletivos altruístas, elevados, inspiradores. Temos que aprender sobre as coisas, sobre o mundo, para sermos pessoas melhores, solidárias e sensíveis.

O que falta na formação dos estudantes?

Nossos estudantes gostam de ver pessoas sinceras e comprometidas com as causas da sustentabilidade ambien¬tal, do compromisso social e da ética. Esses princípios têm que estar no projeto pedagógico da escola, no dia a dia, nas práticas de acolhimento e de convivência entre os mestres, dos mestres com os estudantes e entre os próprios estudantes. A escola que ensina e prepara os seus estudantes para compreenderem o mundo do trabalho, da política e da cultura convoca todos para darem sua palavra e contribuição. Só uma geração de professores e gestores humanizados, críticos, sensíveis e participativos produz uma geração de estudantes sensíveis, críticos e humanizados.

E qual o seu conselho aos pais?

Para ser um pai (ou uma mãe) do passado, com os erros e contradições do próprio passado, nós temos expe-riências históricas já prontas e acabadas, convincentes até. Mas, para sermos os pais e mães numa sociedade de novos direitos e novos deveres, temos que aprender com os filhos, com o tempo, com as contradi-ções e com as conquistas atuais. Há que se aprender entre as gerações. Nós, pais, temos que ter a grandeza e a coragem de conversar com nossos filhos e aprender com eles. É preciso educar para ser pessoa, para ser um ser hu-mano pleno. Essa é a grande lição e o lema da escola. Educar para a humanização dos afetos e dos conhecimentos. Família e Escola são convidadas a construir esse novo mundo.

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Post Author: Redacao

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